quinta-feira, 10 de março de 2011

Para quem gosta de refletir.

DOCES LEMBRANÇAS
(Por Denise Puppin) 
Convivi pouco tempo com minha mãe. Somente 9 anos. As imagens que tenho dela em minha memória são preciosas e constituíram meus alicerces. 

O passado precioso.
Dona Lydia, além de mãe e professora era uma cozinheira de mão cheia, como se diz no interior. As delícias que preparava, nutriram meu corpo, educaram meu paladar e até hoje, alimentam minha alma.

Ela fazia um doce de leite incrivelmente bom e com ele, recheava umas casquinhas de massa crocantes chamada pelos mineiros de ‘Canudinho’. Fazê-los envolvia toda a família. Papai trazia da roça, pequenos e finos cortes de bambu e neles, ela enrolava uma massa lisa que em seguida era frita numa grande panela de ferro escuro.

Era surpreendente observar a ação do óleo quente sobre aqueles rolinhos, que se descolavam da massa na medida em que cresciam e mudavam de cor, ganhando pequenas bolhas. Depois de frio, eram recheados e passados por uma cheirosa mistura de açúcar com canela pelas mãos das crianças. Posso ouvir o som das mordidas revelando a surpreendente crocancia...

Outra maravilhosa iguaria era a ’Torta de Abacaxi e Coco’. As frutas eram integralmente aproveitadas! Da casca do abacaxi surgia um delicioso licor, que por dias permaneciam intactos dentro de longos vidros expostos na cristaleira da copa. O cheiro era ótimo, mas crianças não podiam degustá-lo. As maciças cascas do coco transformavam-se em instrumentos musicais ou, ninhos para passarinho.

Memória afetiva.
Nós, seres humanos, somos afetados por tudo que impressiona  nossos sentidos e atinge o sentimento. Um sabor, um aroma, uma canção, uma entonação, uma palavra, uma imagem, um olhar, uma expressão facial, um toque, podem desencadear no indivíduo uma série de moções.

Infelizmente o conteúdo da memória não se restringe as boas recordações, mas também as que  marcaram dolorosamente. Impossível apagar da lembrança os acontecimentos ruins, no entanto, é possível minimiza-los dando-lhes um novo significado e, os enviando para o segundo plano da memória. Fundamenta-se aqui o segredo de muitas histórias de auto-superação.

Ressignificação, é um método bastante usado por estudiosos em comunicação subjetiva. Ressignificar é entender um acontecimento de modo diferente, dando à experiência um novo significado, objetivando mudança no estado de desprazer.

Há quem consiga sozinho, rever, compreender e modificar suas percepções subjetivas diante de um fato vivido ou, de algum evento que ainda irá ocorrer. Outras precisam de apoio para auxilia-los a formar novas ideias a respeito. Acredite, não há nenhum demérito em solicitar ajuda quando necessário. O importante é ter o cuidado de buscar um profissional capacitado, responsável, confiável e, sobretudo solidário à questão em vigor.

Recordar para crescer.
Dependendo da disposição da pessoa frente ao autoconhecimento e crescimento, as reações ao estímulo provocado possibilitarão uma verdadeira e surpreendente viagem interior.

Conceder tempo relembrando momentos preciosos (muitas vezes esquecidos!), e contentar-se com eles, é o primeiro passo para reconciliar-se consigo e restituir a auto-estima. Faz parte da restauração, olhar para trás com a intenção de revisar, compreender e digerir determinados episódios sofridos que podem estar bloqueando o andar pra frente.

Aqueles que conseguem contar a própria história demonstrando contentamento pelos agradáveis momentos e, excluindo-se da posição de vítima, narrar o passado pouco benevolente, demonstra a decisão de alguém que quer viver o presente.

A resolução amadurecida anima a cantarolar o verso daquela famosa canção do Rei Roberto, ‘...em paz com a vida, e o que ela me trás. Na fé que me faz, otimista demais. Se chorei ou se sorri, o importante, é que emoções eu vivi...’

Ei... você que está cantando comigo! Está realmente resolvido a ressignificar aquela lembrança amarga por um sabor mais doce? 

Denise Puppin é fonoaudióloga (4744 RJ), Professora de Oratória (acadêmica, artística, forense, política, popular e sacra) e Retórica contemporânea; Consultora em Comunicação Humana com ênfase no desenvolvimento do "Ser Integral"; Consultora de Imagem e Estilo Pessoal; Trainer e Coach de Apresentações, Discursos e Treinamentos; Master Practitioner em PNL - Programação Neurolinguística (Instituto de Berlim/Rio); Especialista em Experiência de Aprendizagem Mediada (Icelp/Rio) e Emotologia; Terapeuta no 'método Padovan de Reorganização Neuro Funcional'. 

Desde 1991, ministra treinamentos e cursos individuais, grupos e empresarial em todo o Brasil.
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9 comentários:

  1. Olá Denise,
    linda mensagem, cheia de inspiração!
    abs,
    Raquel
    vivaosmacarons.com

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  2. Zulmira Gonçalves16 de março de 2011 12:55

    Querida,que texto magnifico, vc me fez chorar,nao de tristeza. Consegui como vc mesma disse no texto ressignificar, cada momento lembrando da minha infancia, minha mae que tive o privilegio de te-la por 46 anos, e com este gurpo Amigos de Manhuaçu, voltei ao tempo vendo amigos tao queridos, que infelizmente alguns ja partiram, com Leticia Pinheiro, Prado....Voce apesar da distancia é uma amiga sempre presente. Que Deus te abençoe.bjs

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  3. Olá, Denise, como vai? hoje tive o prazer de conhecer o seu blog através da Sandra Portugal(Projetando pessoas)e já estou te seguindo. Gostaria de saber se você não dar os cursos aqui em São Paulo ou se pode indicar alguém daqui. Aguardo contato. Um abraço.

    mariaclau_dete@ibest.com.br

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  4. Oi, amiga! Nem o tempo, nem a distância e tampouco a dinâmica da vida moderna são capazes de te impedir de fazer o bem às pessoas com seus conselhos, que são sutilmente oferecidos em deliciosas estórias...Agradeço a Deus por Ele ter colocado em meu caminho e no de muitas pessoas uma pessoa tão generosa quanto você. Tenho certeza que todos que te conheceram concordarão comigo, apenas não encontram as palavras que melhor traduzam seus sentimentos! Beijos. Luzimar.

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  5. Querida Denise
    Seus textos são um bálsamo! recolher-se as memórias afetivas é sempre o melhor refúgio diante das adversidades da vida.
    Obrigado por apresentar-me sempre outras possibilidades em tuas histórias.
    grande beijo,
    Silvio Gomes - Les Clefs d'Or Brasil

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  6. Olá Denise Puppin,

    Encontrei seu blog e adorei!

    As memórias que você traz com a riqueza de detalhes nos faz entrar em transe hipnótico e imaginar os doces maravilhosos que sua mãe fazia.

    Deu até água na boca!

    Espero que volte a escrever, irei acompanhar seu blog.

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  7. PERFEITO!!!

    ''Aqueles que conseguem contar a própria história demonstrando contentamento pelos agradáveis momentos e, excluindo-se da posição de vítima, narrar o passado pouco benevolente, demonstra a decisão de alguém que quer viver o presente''.

    muito lindo o texto! Agora fiquei curioso com esse doce da mamãe!!! Rsrsrsrsrs...

    Beijos...
    Willian.

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  8. Simplesmente maravilhoso.

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  9. Excelente texto. Visualizei sua mãe preparando os doces rolinhos e até me deu vontade de tomar o licor, e agora eu posso, pois não sou mais uma criança.

    Ter memórias boas e ruins aprimoram nosso aprendizado e este é melhor quando o balanço entre elas é positivo, para o lado das boas memórias.

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